Mateus 19. 1-9 Família: Formação, Frutos – Fracasso e Fração

A sociedade brasileira vive momentos de transformação de seus valores. Iniciou com a permissão do divórcio após 5 anos de separação – hoje, não precisa mais de tempo de separação. Adultério não é mais crime. O homossexualismo tenta impor sua tirania sobre a liberdade de expressão e já tem o aval para o “casamento” entre pessoas do mesmo sexo. E, vemos pouco a pouco a venda do conceito de bigamia. A família conforme a Bíblia a descreve e Deus a planejou está quase falida. Vamos nos ater a questão do divórcio e novo casamento.

O conceito bíblico de casamento – um homem e uma mulher que decidem firmar uma aliança em conformidade com a lei do Estado (país) e, se são crentes, sob a bênção de Deus através da igreja.

O que não é casamento: ajuntamento – viver juntos; casamento somente no religioso; união de pessoas do mesmo sexo.

Algumas interpretações históricas do texto:

O texto permite o divórcio quando um cônjuge comete adultério; Este texto aprova o novo casamento após o divórcio para o cônjuge inocente;  Será que tais interpretações estão certas e em conformidade com toda a Bíblia?

Examinando o texto:

Os fariseus chegam diante de Jesus perguntando se era “lícito ao homem repudiar sua mulher por qualquer motivo”. A resposta de Jesus apela para o propósito do Criador, ou seja, a monogamia, e repete a proibição contra o divórcio: “o que Deus ajuntou não o separe o homem”. Devemos, presumivelmente, incluir os próprios cônjuges nesta negativa. Os religiosos não gostaram e mencionaram a “carta de divórcio” estabelecida por
Moisés. Jesus rebateu: “Moisés, por causa da dureza dos vossos corações, vos permitiu repudiar vossas mulheres, mas no princípio não foi assim”. Notemos o seguinte: “Moisés permitiu”, mas o propósito do Criador não foi esse, assim Moisés permitiu “por causa da dureza dos vossos corações”. A pergunta dos fariseus no versículo 3 que constitui-se no assunto principal da passagem é a legitimidade do divórcio.

Jesus prosseguiu argumentando: “Por isso deixará o homem a seu pai e a sua mãe, e unir-se-á a sua mulher, e serão os dois uma só carne”: “Portanto o que Deus ajuntou não o separe o homem” (Mt 19.5,6). Fica claro que o ideal que Deus coloca é a monogamia – “…a sua mulher” é singular, e “os dois” só pode dizer respeito a um homem e uma mulher.

Quando um homem e uma mulher se unem, passam a ser “uma só carne” e essa união Deus a tem como sagrada — “portanto o que Deus ajuntou não o separe o homem”. Qualquer homem e disto podemos inferir os próprios cônjuges. Aqui há uma nítida proibição contra o divórcio. Nem os próprios cônjuges podem separar o que Deus ajuntou.

Posteriormente ao casamento nada que ocorra altera o fato de ter acontecido a união – “uma só carne”. Outras eventuais uniões complicam a situação, mas são incapazes de fazer com que a primeira união inexista. É exatamente por isso que Deus chama as outras uniões de “adultério”, pois se a primeira união tivesse sido desfeita, Jesus não usaria  a palavra “adultério”. Ela não teria sentido, visto que a palavra restringe-se especificamente à infidelidade a uma união ainda em vigor.

Uma pré-conclusão: Até aqui não encontramos nada que permita dizer que Deus aprova o divórcio, mas vamos à cláusula de exceção.
O exame da palavra original traduzida por ‘relações sexuais ilícitas’ indica: “incastidade, prostituição, fornicação, imoralidade de vários tipos de relação sexual ilícita.” O termo ‘porneia’ tem em português a palavra ‘pornografia’; e tem os significados de “prostituir, praticar a prostituição ou imoralidade sexual em geral.” Também, tem a indicação de: “alguém que pratica a imoralidade sexual; fornicador ou casamento consanguíneo (Lv 18)”.

A Enciclopédia Histórico-Teológica indica: “Em sentido mais amplo, a palavra denota a imoralidade geral, ou todos os tipos de transgressões sexuais”. Minha posição para o termo: ‘porneia’. Por isso, prefiro traduzir o termo por ‘imoralidade’. É claro, o adultério acontece quando uma pessoa se envolve em imoralidade desenfreada.

Vários comentaristas tratam o termo como adultério. Vamos considerar:
Na Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja cristã, o termo adultério é explicado assim: “Nas Escrituras, ‘adultério’ denota qualquer coabitação voluntária entre uma pessoa casada e outra que não seja o cônjuge legítimo”.
No Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento – adulterar e adultério, recebem as seguintes definições:
(a) o adultério no homem se mede sem reservas mediante os mesmos padrões que se aplicam à mulher (Mt 5.32; Lc 16.18).

(b) O desejo, i.é, a disposição para cometer o ato, é equivalente ao próprio adultério (Mt .27,28). Sendo que o NT considera indissolúvel o casamento, pela sua própria natureza (Mc 10.8), portanto, o novo casamento que se segue após o divórcio que é permitido no AT por causa da dureza dos corações humanos, entra no âmbito do adultério (Mt 5.31,32).

Uma diferença a atentar: O único outro lugar, além de 5.32 e 19.9, em que Mateus usa a palavra porneia é em 15.19. Neste texto a palavra é usada ao lado do termo moicheia. Assim sendo, isto torna-se numa evidência contextual primária para o uso de Mateus, pois ele concebe porneia como algo diferente de adultério. Podemos indagar: isto significa que Mateus concebe porneia em seu sentido normal de imoralidade ou incesto (1ª Coríntios 5.10), ao invés de adultério?
Uma pergunta inquietante surge: Mateus 19:9 se contradiz?

Se Mateus 19:9 permite o novo casamento da “parte inocente”, o texto é auto-contraditório. O que lemos é que Jesus ensina a proibição do novo casamento da “parte culpada” como sendo adultério. Os reformadores Lutero e Calvino ensinaram que o adultério de um dos cônjuges o colocaria como morto. Para tanto utilizaram o texto de Romanos 7 aplicando que o adultério deu ao cônjuge inocente a condição de estar livre, pois a lei do casamento rompeu. Podemos interpretar que o adultério (já vimos que não é uma interpretação adequada do tremo usado por Mateus) mata virtualmente o cônjuge traidor?  Será que esta é uma boa interpretação dos textos? Com todo respeito e estima aos reformadores e outros teológos notáveis da história - Creio que não.

Voltemos à linha de pensamento dos que defendem o novo casamento para a parte inocente. O texto realmente abre a porta para o novo casamento da “parte inocente”? Se a “parte inocente” pode casar novamente este deve ser um caso no qual a aliança do casamento entre a “parte inocente” e a “parte culpada” foi quebrada ou dissolvida.

Implicações deste pensamento:
Se o casamento está dissolvido, presumivelmente pela imoralidade ou adultério da “parte culpada”, está encerrado tanto para a “parte culpada” quanto para a “parte inocente”. E se não há nenhum casamento, a “parte culpada” tem todo direito de casar-se novamente. Não estando casada, ela está livre para se casar (novamente).

Assim, por tal raciocínio Mateus 19:9 contradiz a si mesmo e mergulha a questão de divórcio e novo casamento numa confusão e caos completo. Vamos adiante nas nossas considerações.
A Harmonia de Mateus 19:9 o restante das Escrituras Sagradas

Mateus 19:9 está em perfeita harmonia com o restante das Escrituras Sagradas na questão específica de divórcio e novo casamento. O que entendemos do texto de Mt 19. 1-9?

Na realidade, não há nenhuma contradição no texto Mateus 19:9. Tampouco em o nosso texto e todos os textos proibindo o novo casamento. Mateus 19:9 meramente parece aprovar o novo casamento da “parte inocente”. Para dizer de uma forma mais contundente, a aprovação do novo casamento da “parte inocente” é uma inferência que alguns erroneamente extraem de Mateus 19:9.

O significado de Mateus 19:9 é que todo divórcio é proibido, exceto aquele devido à moralidade sexual de um dos cônjuges. A frase, “não sendo por causa de imoralidade” (ao invés de relações sexuais ilícitas), dá a única exceção bíblica à proibição de divórcio. Atentemos ao seguinte: Ele não dá à exceção uma permissão ao novo casamento. Para dizer de uma forma diferente, a palavra ‘porneia’ traduzida pela expressão “não sendo por causa de imoralidade” dá o único fundamento bíblico para se divorciar da esposa (ou do marido). Ela não dá, porém um fundamento bíblico para o novo casamento após o divórcio.
Por que Cristo menciona o novo casamento no texto? Ele conhece bem a natureza humana. Sua menção é interpretativa dos desejos no coração daquele que propõe o divorcio: quase sempre o homem que se divorcia de sua esposa, ou já intenta casar com outra mulher ou eventualmente se casará com outra. Na maioria dos corações femininos penso que não há tal inclinação.

O que dizer sobre o novo casamento após o divórcio? O que dizer sobre a posição de muitos sobre a permissibilidade do novo casamento após o divórcio em Mateus 19:9?

Uma observação conclusiva: Não há nenhum ensino sobre o novo casamento do homem que se divorcia de sua esposa injustamente, isto é, o homem cuja esposa não é culpada de imoralidade – o mesmo é verdade da mulher para com o marido. Neste caso, peca, pois não se enquadra na cláusula de exceção. Jesus, também, declara que tal pessoa comete adultério quando se casa novamente. Mas, o que dizer sobre o novo casamento do homem que se divorcia de sua esposa sobre o fundamento da imoralidade dela ou vice versa? Lembremo-nos das perguntas neste texto bíblico e no pregação. O que dizer sobre o novo casamento da “parte inocente” em Mateus 19:9?

Em verdade, Mateus 19.9 não contraria Lucas 16.18 e Marcos 10.11-12, pois as três passagens são unânimes na afirmação de que Deus não aprova o divórcio; também, 1ª Coríntios 7.10-16. Só a morte desfaz a união matrimonial. Base bíblica: Romanos 7.1-3. Infidelidade complica, mas não desfaz. Gênio duro ou ruim atrapalha, mas desfaz casamento. É por isso que Jesus chama qualquer segundo casamento de “adultério”, pois a primeira união ainda existe. Parece claro que os discípulos, na hora, entenderam assim. Por quê?
Porque a esposa (ou marido) está ligada pela lei ao seu marido (ou sua esposa) enquanto seu marido (ou sua esposa) viver. Somente a morte dissolve a aliança. Morte no sentido literal – perda das funções mentais e corporais; não morte virtual (considero ela(a) morto). A imoralidade não dissolve o laço do casamento. Enfaticamente, o adultério não tem o poder para dissolver a aliança do casamento. O divórcio pode ser permitido sobre o fundamento da imoralidade.
Todo novo casamento após o divórcio é proibido, pois segundo o padrão de Deus é adultério, incluindo o novo casamento da “parte inocente”. A razão é que a ordenança universal do casamento dada por Deus é uma aliança para a vida toda, indissolúvel até a morte.

Conclusão:

Casamento é um relacionamento de “uma só carne” estabelecido por Deus e de extraordinária significância aos olhos de Deus (Gênesis 2.24; Mateus 19.5; Marcos 10.8);

  1. Somente Deus, não o homem, pode terminar a relação de “uma só carne”;
  2. Deus termina o relacionamento de “uma só carne” somente por meio da morte de um dos cônjuges (Romanos 7.1-3; 1ª Coríntios 7.39);
  3. A graça e o poder de Deus são prometidos e são suficientes para capacitar um cristão divorciado e fiel a permanecer solteiro por toda sua vida terrena, se necessário (Mateus 19.10-12,26; 1ª Coríntios 10.13);
  4. Frustrações temporárias e desvantagens são muito mais preferíveis que a desobediência do novo casamento, e produzirá profunda e duradoura alegria nesta vida.

Aos que já se casaram novamente:

Devem reconhecer que a escolha de casar-se de novo e o ato de entrar em um segundo casamento é pecado. Confessá-lo como tal;

  1. Devem não tentar retornar ao seu primeiro parceiro após entrar numa segunda união;
  2. Devem não se separar e voltar a viver como solteiros pensando que isto resultaria em menos pecado porque todas as suas relações sexuais são adultério. A Bíblia não dá prescrições para este caso particular, mas trata o segundo casamento como tendo significância aos olhos de Deus. Isto é, existem promessas feitas e uma união foi formada. Não deveria ter sido formada, mas foi. Isto não deve ser tomado levianamente. Promessas existem para serem mantidas, e a união deve ser santificada a Deus. Embora não seja o estado ideal, permanecer em um segundo casamento é a vontade de Deus para este casal.

Como tratar alguns casos na vida da igreja:

1)   Exigir de um cônjuge que se converteu e que já passou por duas (ou mais) uniões, que volte ao primeiro cônjuge é anti bíblico.

2)   Sei que existem casos horripilantes de abuso até criminoso por parte de um dos cônjuges onde a separação torna-se uma necessidade inclusive para evitar a morte prematura de uma das partes. A violência pode justificar a separação, mas não um novo casamento. A meu ver, um dos aspectos mais desgraçado do pecado é que, quase sempre as consequências piores recaem sobre terceiros – os filhos e as pessoas do novo relacionamento. Pastores e líderes precisam de sabedoria e discernimento para tratar e orientar nos passos que o cônjuge ferido deve dar. Infelizmente, há casos em que uma separação, no mínimo, temporária deve ser tomada.
3)   Novo convertido divorciado – se está só: orientação para que se mantenha neste estado; se está ajuntado com outro – procure formalizar a união;

4)    Crentes divorciados e que estão num segundo casamento não devem assumir liderança oficial na igreja. 1ª Timóteo 3.2.

Sobre admin

Egon Paulitsch. Nasci em Ponta Grossa - Paraná. Formação: Bacharel em Teologia pelo Seminário Bíblico Palavra da Vida - SP. Membro da Igreja Ev. dos Irmãos de Coqueiro em Ananindeua - Pará. Vanete Monteiro Paulitsch - Nasci em Belém - Pará. Formação: Magistério; auxiliar de Enfermagem e Licenciatura em Teologia com especialização em educação cristã - Seminário Bíblico Graça - Belém.
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